Sunday, 5 April 2015

Disciplina para que? O Brasil e a Hipocrisia nas máximas no mundo.




Disciplina econômica sempre foi um símbolo de prosperidade.  Disciplina econômica sempre esteve presente e intensamente imposta no meio acadêmico, no mercado financeiro e entre as pessoas em geral.  Afinal de contas, economia é o estudo da administração dos bens escassos e, por isso, essa tal disciplina sempre foi ponto de foco central entre economistas e governantes.  Hoje em dia, será que disciplina de gastos, economizar, poupança têm mesmo relevância na prática?  Será que existe mesmo a necessidade de haver alguma poupança para que haja prosperidade via investimentos como muitos continuam clamando por aí, mesmo depois das consequências e atitudes tomadas após a crise de 2008? Será que os países em desenvolvimento sofreram e sofrem porque são indisciplinados fiscalmente?  Será que, realmente, imprimir dinheiro cria inflação como é afirmado a séculos? Uma coisa é notável; justamente através da história vimos que os grandes ciclos e impérios acabaram por N motivos, mas com certeza, um dos grandes vilões foi a inflação, porém, hoje isso não se aplica mais, só é uma ideia que continua nas cabeças dos burocratas hipócritas e detalhe, a tese só aplicada nos países pobres e sub desenvolvidos.

Afinal, qual é, ou pelo menos, qual deveria ser o objetivo do estudo da economia? Acredito que a resposta é muito simples.  Estudar economia é, ou deveria ser, a idéia ou tentativa de gerar bem estar social ao maior número de pessoas possível na terra sem criar inflação alta ou desconfortável tendo também em vista a manutenção responsável dos recursos naturais.  Tendo em vista que o objetivo é esse, vamos analisar a situação dos últimos anos no mundo e vamos ver se existe ou não dois pesos e duas medidas na hora de tratar países "desenvolvidos" e sub desenvolvidos.  Detalhe, coloquei países "desenvolvidos" entre aspas, pois na minha humilde opinião, tendo como base a economia clássica, ou melhor, a economia estudada nas melhores universidades pelo mundo; país que não tem como pagar suas contas, pais com bancos super alavancados e quebrados por definição, não podem ser considerados desenvolvidos, simplesmente porque faliram. Com a falência, serviços sociais avançados e da melhor qualidade deveriam cessar de existir e logo esse país desenvolvido deveria quase que imediatamente ser rebaixado a um pais em desenvolvimento ou mesmo pobre, não faz sentido para você?

Vimos o Japão entrar em grande expansão econômica após a segunda guerra mundial, e essa expansão e melhora brutal da qualidade de vida da população chegou ao ápice na década de 80.  Logo depois o que acontece? "O país ficou Insolvente baseada nas teses econômicas liberais". Na presença de muitas dívidas e contas a pagar o governo japonês começou a imprimir dinheiro para pagar suas contas e dívidas e principalmente para manter seu sistema financeiro solvente.  Eles chamavam isso de medida de emergência heterodoxa, mas o ponto é, a teoria econômica deixou de valer para aquele país, pois o dinheiro não vinha de poupança alguma e sim da "máquina de imprimir do banco central".  Até aí tudo bem, emergência, passageiro e consequências ruins iriam acabar surgindo, e logicamente, a inflação foi a primeira variável que "acendeu" na cabeça dos economistas e analistas e, muito provavelmente, tudo aquilo iria desmoronar num caos de espiral inflacionário.  Ora, todo mundo sabia que, ir contra a teoria econômica e ser indisciplinado só poderia acabar em problemas. 

O que nós vemos hoje no Japão? O bem estar social continua a todo vapor, o desemprego é baixíssimo, não há nenhuma inflação, muito pelo contrário, eles vêm lutando contra a deflação há muitos anos e o principal, a impressão de dinheiro que seria passageira e emergencial continua até hoje, e o "pior" ainda, mais dinheiro do que nunca é criado do AR nos dias de hoje.  Além de tudo, o país tem uma dívida do governo de 220% do PIB ( parece até piada, ou mesmo uma lenda, conto de fadas).  O que houve com a teoria econômica da inflação por indisciplina e olhem que estamos falando na pior indisciplina da teoria econômica, a criação de dinheiro sem lastro ou como costumo falar, dinheiro do AR?

O que é inflação? E porque esse fenômeno jamais aconteceu no Japão após o início da "crise"?  Inflação acontece quando a demanda é maior do que a oferta por tempo suficiente para jogar os preços para cima; mas e se a oferta for sempre equilibrada ou até maior que a demanda mesmo com dinheiro do AR?  Resposta, não há inflação alguma, muito pelo contrário.  Mas os economistas são teimosos, os economistas são convictos e mesmo sem entenderem nada, clamavam que o Japão era uma exceção a regra e que não era possível para o resto do mundo fazer o mesmo, eu aceitei a tese, o mercado aceitou a tese e o mundo continuou girando.

A crise de 2008 chegou, EUA, Europa, UK literalmente quebraram e que fizeram? Disciplina fiscal? Nem pensar. Deixar os bancos e segurados e várias outras indústrias quebrarem como mando a teoria econômica liberal, nem pensar.  O que foi feito? O mesmo que foi feito no Japão.  Déficits fiscais monstruosos apareceram, socorros a bancos, seguradoras e outras indústrias aconteceram e tudo isso como? Utilizando o tal dinheiro do AR e dívidas e mais dívidas.  Cortaram gastos sociais ou até aumentaram? Pois é, aumentaram.  Houve alguma inflação? Não, muito pelo contrário, hoje esses países estão com inflação baixíssima ou até deflação e suas taxas de juros estão a zero ou negativas.  Juros zero ou negativo??? Mas, e toda a indisciplina não deveria justamente levar os juros as alturas por causa do maior risco? Pois é, nada disso aconteceu ou acontece hoje em dia.  Os bancos centrais tomam conta e garantem "o esquema".

Hoje pedem que o Brasil tenha disciplina fiscal, que corte gastos, que aumente impostos que faça exatamente tudo o que os países "desenvolvidos" não fizeram e não fazem.  Isso tudo também é "exigido" para vários países sub desenvolvidos pelo mundo, mesmo que, todos os economistas, acadêmicos e participantes do mercado tenham visto que nada da teoria de inflação realmente aconteceu na prática.  Afinal, existe no mundo hoje alguma teoria de inflação confiável?  Ou o que existe é uma hipocrisia, ou mesmo, um sistema de castas no mundo financeiro aonde só os países com história de domínio possam fazer o que querem, sem deixar que outros façam também.  Ou ainda, será que países que detenham o poder bélico podem fazer o que querem mesmo que por coação e influência? A mais pura hipocrisia domina a situação mundial.

O Brasil tem inflação relativamente alta e juros astronômicos, juros impensáveis, juros acima da inflação que são o dobro da própria inflação, o mercado fala que é uma consequência! Balela!!!. Quanto da inflação do Brasil acontece via juros? Quanto de influência o juros tem na cessão de crédito, eu diria e as correlações dizem, perto de zero.  Então por que pagamos "o maior" juros real do mundo? Porque amigos existe uma cultura de que tudo tem que ser resolvido via juros, e a classe dominante e formadora de opinião acata isso, afinal é super conveniente ganhar 13% ao ano, ou 6% de juros reais somente freqüentando a praia. Que vergonha! Enquanto isso 23% de toda a arrecadação do país vai para o pagamento de juros, vergonha! 

O Brasil hoje tem ameaças de downgrades por causa de indisciplina fiscal, falta de poupança e por causa da possibilidade de não poder pagar suas dividas.  Sejamos honestos, o Brasil hoje é AAA e não nota mais baixa, sabem por que? Porque nota de agência de rating é referente a capacidade de um pais honrar suas dívidas.  Hoje o Brasil tem $40 bilhões de dívida externa e $370 bilhões em reservas, se quiserem descontar os $100 bi de swaps cambiais mesmo sem esses tenham sido "liquidados", contemos com isso também, sem problema. Sobra muito!  O Brasil, se quiser paga 100% da dívida externa amanhã ( algo que deveria fazer) e as dívidas em reais ( moeda local), no limite, imprimimos e pagamos.  Não rolávamos nossas dívidas no overnight na década de 80?  O único calote que existiu no Brasil não foi de dívida externa? Que conversa de downgrade é essa? Concluindo que hoje o Brasil tem 100% de capacidade de pagamento de suas dívidas e, com isso, pensar em downgrades ou mesmo levar um downgrade por qualquer indisciplina que seja, é hipocrisia, afronta e falta de respeito.

O Brasil tem inflação alta hoje em dia por vários motivos; leis erradas do passado, sofreu uma desvalorização cambial substancial nós últimos dois anos, um governo mais popular tirou 40 milhões de pessoas da miséria e retirou mais 30 milhões da classe pobre para a média, falta de infra estrutura, enfim, um monte de variáveis, mais isso "é normal".  A Coréia do sul ao desenvolver-se rodou inflações entre 5 e 9% ao ano por muitos anos e, com o passar do tempo e boas políticas criou bem estar social para o maior números de pessoas possível e hoje não tem inflação alta.

Adotar disciplina para que? Estrangular a população e os meios produtivos via impostos altos para que? Cortar dívidas para que?  Hoje vivemos na era dos bancos centrais, vivemos a economia que não é mais o estudo dos bens escassos e sim abundantes!!! ( o capital). Foquemos no bem estar social e em reformas para conter a indexação da economia e os vícios ligados a expectativa de inflação crônica, isso sim tem que ser feito e não ajuste fiscal algum. O dinheiro hoje é sem lastro e é criado ao léu.  

Eu "gostaria muito" de ver se "todo mundo" iria gostar de morar no UK se não houvesse segurança, educação, saúde e infra estruturas de qualidade altíssima.  Tudo isso é pago também com muito dinheiro do AR e dívidas e mais dívidas e mais dívidas ( Hoje o banco central do UK detém 40% de toda a dívida do país, funny enogh!!!). Lembrem, criando-se dinheiro / riqueza, cria-se dívida e se o dívida não é paga, ou não rende nada, ou roda a taxas negativas, isso não é riqueza. O endividamento é gigante no UK, por volta de 120% do PIB (Brasil tem dívida líquida de 36% do PIB), o UK vem rodando déficits ficais grotescos que já chagaram a 10% do PIB há alguns poucos anos e esse ano será de 5% do PIB ( querem o que pobre Brasil rode superávit fiscal de 1,2% do PIB) pode isso? Eu quero Brasil como o UK, eu quero Brasil Japão, eu quero Brasil Europa, se for para não seguir os livros de economia, o Brasil também quer o mesmo. Queremos o bem estar social para o maior número de pessoas possível, porque, claramente, no mundo não existe mais a tal da restrição orçamentária, isso fica para o museu de economia e não para debates de gente séria ou mesmo gente com um mínimo de inteligência.

Thursday, 2 April 2015

Fies, Mantega e a Inflação

Dentre os diversos fatores que determinam o desenvolvimento econômico das nações a demografia ocupa um lugar de destaque. Primeiro por que ele é essencialmente determinístico: o perfil etário da população num horizonte de uma década ou duas está mais ou menos definido é possível antever com bastante acuidade a sua evolução ano a ano. Segundo por que de certa forma ele é um componente quase inexorável: a maior ou menor oferta de mão-de-obra em idade ativa é uma força quase irresistível rumo ao desenvolvimento. Precisam prevalecer condições extremamente singulares para que o curso demográfico não seja determinante no desenvolvimento econômico.
Nesta perspectiva o que presenciamos na economia Brasileira nestes últimos dois anos é bastante peculiar. A mão-de-obra empregada estagnou a partir de 2013, subitamente. É muito fácil apelar a explicações ideológicas: teria sido culpa da política econômica. Isto, entretanto, não faz sentido: deveras, a crítica é justamente de que houveram exagerados incentivos na política econômica. Mas isto, por si só, deveria ter ampliado ainda mais a massa empregada, não ocasionado sua estagnação.
Mas o que se passou então? Os dados são claros: houve uma queda relevante da taxa de participação no mercado de trabalho. E esta queda não foi generalizada: concentrou-se basicamente na faixa etária entre 18 e 24 anos. A taxa de não-participação costuma ser bastante estável. Em 2003 29.8% das pessoas entre 18 e 24 encontravam-se fora da força de trabalho segundo o IBGE. Em 2004 eram 29,3%, em 2005 30,5%, em 2006 29,4%, em 2007 29,2%, 2008 29,4%, 2010 30,1%, 2011 29,9%, 2012 30,4%. Típica flutuação da imperfeita mensuração estatística. Algo extraordinário acontece então: em 2013 há um salto para 32,2% e finalmente em 2014 para 34,9%. Nada aconteceu na faixa etária entre 25 e 49 anos. Esta ficou perfeitamente estável em níveis muito baixos de não-participação no mercado de trabalho.   
Não é necessária muita imaginação para se entender o que aconteceu: foi a disseminação vertiginosa do crédito estudantil que de certa forma abriu espaço para que parte dos estudantes pudesse temporariamente se retirar do mercado de trabalho.  Para se ter uma idéia da dimensão do crédito estudantil, em 2010 eram contemplados algo da ordem de 500 mil contratos. No fim de 2014 eram algo da ordem de dois milhões. É algo com dimensão para se ter impacto macroeconômico.
Pois bem, se nossa tese está correta, e o crédito estudantil de fato propiciou a saída de quantidades expressivas de pessoas do mercado de trabalho, é bastante fácil entender o que se passou nos últimos dois anos. Dada a dimensão do choque de oferta de mão-de-obra, a insistência do ministro Mantega de propiciar mais e mais incentivos fiscais numa tentativa de reiniciar a trajetória de crescimento econômica teve como único efeito gerar inflação: em nenhuma circunstância um incentivo fiscal irá promover crescimento sem que haja condições matérias para tal. Se não há mais gente para trabalhar, qualquer tentativa artificial de gerar crescimento terá como consequência a geração de inflação e a destruição das margens de lucros nas empresas.
Percebendo esta dinâmica inusitada da inflação o Banco Central inicia um ciclo de aperto monetário na economia, numa tentativa de segurar a inflação pela contenção das iniciativas do setor privado. Mas eis a grande ironia: subir os juros no Brasil tem um efeito fiscal fortemente expansionista. A despeito das hercúleas, e por vezes irresponsáveis iniciativas de pré-fixação da dívida pública pelo tesouro nacional, o Banco Central faz grandes esforços para desfazer isto. De fato uma parcela muito relevante da dívida pública encontra-se no próprio balanço do Banco Central. A contrapartida destes ativos são as operações de remuneração pós fixada do lado do passivo. Enfim, subir juros significa prontamente aumentar substancialmente o déficit nominal. Como, tautologicamente, a despesa de alguém é sempre a receita de outrem, e por conseguinte, déficit fiscal é renda privada, uma subida dos juros sem uma contrapartida em aperto fiscal é necessariamente expansionista do ponto de vista fiscal. Ela só surte efeito a partir do ponto em que causa estragos nos balanços do setor privado: decisões de investimentos são postergadas, a tomada de risco é desincentivada pelas altas remunerações sem risco, e finalmente os endividados colocam-se em situação delicada.  
Mas qual a política econômica sensata neste caso? Simplesmente tirar o incentivo fiscal. Não há dinamismo algum no setor privado. Muito pelo contrário. Não há justificativa, por conseguinte, para o aperto monetário. Não é necessário controlar o apetite do setor privado. É necessário reconhecer que circunstancialmente não há folga alguma no mercado de trabalho e portanto o estado deve tirar ao máximo seus tentáculos dele. Não por razões ideológicas, simplesmente por uma questão estratégica: este choque de oferta é temporário, e mais cedo do que tarde, a realidade demográfica voltará a se impor e abrirá novamente espaço para uma expansão robusta da economia. Estudar é, no fim do dia, investimento. E, sob certos aspectos, investimento mais importante do que os investimentos do PAC. Pontes poderão ser construídas depois. Educação não.  

Wednesday, 1 April 2015

Esquerda ou Direita, você escolhe.

                                             
Estava eu comendo um queijo da serra e bebendo um belo Chianti pensando no conceito "esquerda caviar". Afinal serei eu, um fã de Hayek pertencente a esse grupo? Um conceito que me coloca na esquerda? Afinal o que é esquerda e direita hoje em dia? Cheguei a conclusão que sou de esquerda, mas "de esquerda por circunstância". Tendo toda a minha educação acontecendo em moldes norte americanos, sinto um peso no coração quando falo de tamanha frustração de ser um participante do mercado financeiro hoje em dia. Ouvir todos os dias berros de jornalistas, analistas e de PHDs sobre conceitos de teorias macro econômicas que estão ultrapassados na prática e, para quem tem vergonha na cara, na teoria também, é deprimente. Eu sei que é triste estudar por 40 anos e depois ter que aceitar que tudo aquilo estudado nada mais era do que uma ideologia e nunca uma ciência, ou sequer um método de tomada de decisões para a sociedade. É frustrante acordar todos os dias e ver que, mais do que nunca, o estado está presente e preponderante nas economias mundiais; sistema mais de esquerda do que nunca. O que me ensinaram na faculdade foi, quanto menor o estado melhor, quanto menos influência do estado melhor, quanto menos regulação melhor, "deixe a mercadoria passar". Que a meritocracia reine, que a produtividade eleve, que os mais eficientes superem os retardatários.


Ser da esquerda caviar em tese, significa ter idéias ou convicções de esquerda, mas gostar, também, das coisas boas da vida, literalmente até o caviar mesmo. Mas existe alternativa nesse mundo para alguém rico que tenha bom senso do que, mesmo sem entender, ser considerado da esquerda caviar? Acho que não, afinal a esquerda se tornou o único lugar confortável num mundo que presenciou tudo que aconteceu de 2006 para cá.

Existia um tempo quando todos pensavam e tinham fé, que QE era uma exceção do Japão. O conceito em si, já era absurdo em termos históricos pois, afinal, um banco central criar dinheiro do ar para comprar títulos do tesouro nacional do mesmo governo parecia obsceno, mas, o mundo e eu, não sei porque, ignorou e "desculpou" essa situação. A maior de todas as desculpas foi que o QE japonês era esterilizado e que não haveria nenhum problema pois, afinal, os títulos vendidos pelo próprio BC iriam esterilizar o dinheiro criado do AR. Que falta de senso básico!!! Hoje, as pessoas acham que o QE que o mundo todo tem feito é diferente do Japão, mas não é, tudo acontece exatamente da mesma forma e hoje, o mundo ignora e "desculpa" isso também. Como não estar do lado da esquerda?

Em qualquer QE, ao criar dinheiro, o BC cria reservas bancárias; as 18:00 horas essas reservas bancárias" dormem" em algum lugar e vão procurar por algum rendimento, ou seja, sempre que o BC cria dinheiro do AR existe, no mesmo dia, uma contra partida em forma de dívida ou a esterilização desses dinheiro. Concluindo facilmente que não existe QE que não seja esterilizado, fazer distinção é puro teatro. O QE pode ser esterilizado com a venda de um título de 10 anos ou se 1 dia, mas é sempre esterilizado. O triste? É que com quem você fale no mercado financeiro, vai te falar que o QE praticado nos EUA era diferente do praticado no Japão. É pena.

Aconteceu uma coisa horrível, o Chianti está acabando. Ou seja, vou me abreviar até para poder ficar com minha linda mulher. O liberalismo ou o neo liberalismo ou o laissez-fair levaram uma mega HIT na cabeça em 2008. A idéia de que o privado é mais eficiente que o público foi por água abaixo porque, acredito eu, ou qualquer ameba, que o que foi feito do sistema financeiro mundial foi tão, mas tão falho que nem a mente pública mais incompetente poderia replicar 10% do que foi feito pré 2008 e logicamente continua a fazer hoje em dia, mas em uma espécie de PPP, parceria público privada. Os maiores bancos e seguradoras do mundo quebraram, os EUA e o G7 não aceitaram suas próprias regras e mudaram as regras do jogo. Imaginem os EUA e Europa com lei de responsabilidade fiscal nesses últimos 6 anos??? Pois é, quem financiou tudo isso? Quem financiou déficits fiscais de 10% do PIB? Em grande parte, os bancos centrais com dinheiro do AR, o mesmo AR do dinheiro do Japão.

Afinal não era meritocracia? Afinal , não era: quem falha, paga por isso? Cadê? Cadê o clearing da crise de 2008? Cadê a transparência, para todo mundo saber para onde foram os trilhões em linhas de crédito de salvamento que o FED concedeu? Cadê o planilha que me diz quem são as contrapartes de centenas de trilhões em derivativos de crédito que existem no mundo? Cadê a vergonha nas cara para falar, "nós falhamos e o ciclo de baixa tem que play out"? Não existiu, porque pimenta no rabo alheio é refresco; planilha do FMI é para a casta baixa e "não para nós" dos países do Atlântico Norte, Hipócritas!

E então, ser ou não ser de esquerda? Se os bancos centrais dos países desenvolvidos financiam os deficitários e problemas públicos e privados sem limites, com certeza eu vou querer, que, no mínimo, o bem estar da população esteja no meio dessa bagunça! E óbvio que não vou querer ser freira em prostíbulo! Se os EUA, EU, UK e Japão são as maiores "prostitutas", não vou eu, com minha educação estadunidense, querer que o meu Brasil se beneficie das mesmas benesses e que o pobre do mundo todo tenha melhores oportunidades? Claro que vou! Alguém acha certo dezenas de trilhões serem criados do AR para que não seja para benefício de todos e só de uma pequena porção da população? . Aaaaaaaa mas afeta todo mundo no longo prazo, está sendo para bem geral da população . Afeta mesmo? Noto que esse longo prazo nunca chega e é por isso que, se Hayek não conseguiu espaço com as potências mundiais, que sejamos todos Keynes, mas para todo mundo e não só para os países "desenvolvidos". Nesse caso, sim, faço questão de ser da esquerda caviar, porque, afinal, não sou de esquerda e sim tenho bom senso. Quem não tem o seu BC que levante o dedo. Zzzzzzzzz... ninguém ... Tudo virou decisão política, não há mais mercados livres, vamos acordar! Será que a direita de hoje não é a esquerda de ontem? 

Monday, 30 March 2015

Mangabeira, a Vanguarda e os Evangélicos

É sempre cativante ler, ouvir ou ver o Prof. Mangabeira Unger. A lucidez lógica do pensamento, a visão abrangente do fenômeno social, a ótica do direito enquanto atividade transformadora aliados à exuberante energia promove um espetáculo algo raro nos intelectuais de hoje.
Sua obsessão recente é a promoção do que ele chama de democratização da oferta através de práticas da vanguarda do capitalismo que, dentre outras coisas, está fundamentada no princípio de competição cooperativa. Os setores da vanguarda econômica teriam segundo ele restringido a competição ao essencial, e fora de escopo praticam modelos cooperativos em busca de ganhos de eficiência. Isto é claramente evidente no setor de tecnologia de ponta. A explosão dos esforços cooperativos das grandes empresas de vanguarda em tecnologia é de fato impressionantes: do financiamento do Linux, passando pela liberalidade de abertura de códigos (até a temerária Microsoft aderiu à tendência numa tentativa de manter-se relevante), à proposição de protocolos e sistemas de hardware padronizados. Dentre várias outras iniciativas.
Mas soa bastante artificial à primeira vista a exposição de tal modelo de negócios ao Brasil. Falta o exemplo ao professor. O que é curioso, uma vez que o grande exemplo de vanguarda produtiva no Brasil está na cara. Quer por esnobismo intelectual, afastamento cultural ou qualquer outro motivo, passa-lhe desapercebido. A vanguarda produtiva no Brasil é o movimento evangélico. Não me importa aqui discutir os seus aspectos religiosos, seus aspectos culturais, ainda que tremendamente interessantes em si mesmos. Quer olhar o movimento evangélico enquanto fenômeno econômico. Que o leitor não seja ingênuo: é um fenômeno econômico de monta. O IBGE pode não saber medir, mas é disparado o setor econômico com maior crescimento, virilidade e consistência das últimas décadas. E é claramente algo que o Brasil superou o mundo inteiro em termos de inovação, adaptação e escopo. Para os de fora a abrangência da atividade econômica não é evidente: não se trata de cultos ocasionais aos domingos. Existe toda uma gama de atividades circunscritas à vida comunitária das igrejas que é absolutamente impressionante: aconselhamento espiritual, psicológico, marital, atividades de convívio, shows musicais, bazares, ações sociais, literatura, música, teatro, etc. Estamos falando de algo talvez da ordem de 3% do PIB em atividades econômicas. Algumas remuneradas, outras não: mas atividades econômicas de qualquer jeito.
Como isto é possível? Justamente pelo princípio da cooperação competitiva. É óbvio que as diversas igrejas estão competindo entre si: basta ver a densidade de templos, dos mais extravagantes aos mais simples, em qualquer grande centro urbano país afora. Nem por isso elas deixam de cooperar entre si. Quer por motivação espiritual quer por interesse econômico elas entendem que cooperando são maiores do que simplesmente competindo. Cooperando elas atentam contra a retaguarda econômica representada pelas manifestações religiosas tradicionais: católicos, protestantes, espíritas e umbandistas são igualmente incapazes de enfrentar em pé de igualdade esta nova explosão econômica. Da mesma forma que as empresas da velha tecnologia são incapazes de afrontar a vanguarda econômica da nova tecnologia. Ou você adere a esta vanguarda do sistema produtivo (wallmart talvez seja um grande exemplo), ou reconhece a inevitabilidade de seu fim (IBM talvez seja um grande exemplo).

Em termos econômicos não há nada de diferente entre o vale do silício e o movimento evangélico no Brasil. Os dois representam o estado da arte em seus respectivos setores. Um é celebrado universalmente como exemplo da nova economia. O outro não parece ser notado por ninguém. Até que um dia será notado. E suas lições aprendidas. 

Ben Bernanke und Das Kapital

Well Ben Bernanke is a blogger. Some sort of central bank eulogy it seems. He is defending the thesis that yield depression in developed economies is not a consequence of central bankers’ will. There are supposedly structural reasons, which the great master has promised us to unravel in the next episodes.
While we obviously agree about the thesis, the framework proposed, invoking Wicksellian arguments of natural rates of interest linked to growth seems misguided. The contemporary obsession with an accounting perspective of capital seems a great impediment for the proper understanding the contemporary world. We must seek a deeper definition of capital to move forward.
From a social perspective, the nature of capital is straightforward: it is the phenomenon of expropriation of labor from a fraction of its outcome. Either by taxation, tariffs, rent or profit. We are not interested here in the reasons and manifestations of this exploitation. Rather we want to note that the potential exploitation is not arbitrary: by competition between enterprises in the goods and services markets, by competition in the labor market, by competition in the real estate market, by competition in the vote “market”, exploitation is limited. Frankly, it is quite stable over time: from time to time (decades) bargaining power shifts from one side to another, but on the long run there seems to be some equilibrium level.  
On the other hand, the total amount of wealth accounted for in mark-to-market basis seems unbounded. How is it possible? Temporarily such a divergence can be justified by ongoing indebtedness of households or governments. Postpone exploitation to the future! There are limits to it: on the private sector, at some point there will not be any creditworthy borrower with solid collateral. This is what has happened in 2008. Some critical threshold of household indebtedness was crossed. On the public sector, it is obvious to anyone that apart from a peculiar country in South America, no democracy is capable of providing consistent primary surplus to exert the exploitation by means of taxation. One can advocate zero primary deficits, but a surplus? The tentative experience to substitute household indebtedness by massive public deficits after 2008 was definitely aborted with the emergence of Euro crisis. The political reasons are somewhat opaque but no one can deny that there is no propensity in the world to endure large fiscal deficits. The worst outcome from the point of view of capital: no large deficits, nor primary surplus. Just the inability of governments to use their immense power in the interests of capital.
Markets have finally tried the ultimate bet: let us exploit emerging markets! Impressive amounts of capital flew into emerging economies following 2010, far more than any one of them had the ability to absorb. The result was a universal credit boom in emerging economies that defeated the original purpose: now even a greater amount of claims for wealth seeking labor exploitation. Even worse, the artificial growth provided by the liquidity has turned bargaining power to labor, not to capital. So much lesser exploitation capacity there.
The final blow on capital occurred with the collapse of oil prices, which represents some marginal form of exploitation. Therefore, in mid 14 reality imposed itself. There were two possibilities: either a significant write down in the claims of wealth or the annihilation of yields on capital. Central bankers had given their answer long ago: they would do whatever it takes to prevent the write-down. Hundreds of trillions of marked-to-market worth of accounting wealth would have to satiate itself with the existing exploitive capacity. This is an ongoing process. It has started with high-grade bonds but it will inevitably expand its horizons to every manifestation of capital. Returns on capital is on a downward secular trend.

Which bring us to the real question, the one that surprisingly Bernanke has not proposed: is capitalism viable without a cost for capital? Like Ben Bernanke, we will answer this in the next episode. 

Friday, 27 March 2015

Sobre os aforismas econômicos

Na sua História da Análise Econômica Schumpeter debate em profundidade o tema acerca das relações econômicas. Vejamos um trecho de relevo em tradução livre:
“Em si mesmo não há nada de novo no que se convencionou chamar de equação de Fisher ou Newcomb-Fisher. Ela simplesmente relaciona o nível de preço (P) com (1) a quantidade de dinheiro em circulação (M); (2) sua ‘eficiência’ ou velocidade (V); e (3) o volume (físico) do comércio (T). Vamos expressar isto escrevendo P = f(M,V,T). A esta relação funcional a equação de Fisher impõe a forma P = f(V,M,T) = MV / T ou MV = PT. De novo, esta equação não é uma identidade, mas uma condição de equilíbrio. De fato, Fisher não disse que MV é a mesma coisa que PT, ou que MV é igual a PT por definição: dados os valores de M, V e T, eles tendem a trazer um determinado valor de P, mas eles simplesmente não  traduzem um certo P.”
Conceitualmente o que nos importa aqui é notar que a identidade MV = PT deriva de uma tautologia fictícia. Num mundo de poucos bens, todos explicitamente transacionados por uma única moeda metálica, existe uma restrição operacional às transações dado um certo nível de preços. Para que o volume transacionado fosse alto, uma mesma moeda teria que passar de mão-em-mão a uma frequência bastante alto, o que pode ser impossível ou muito custoso dadas as possíveis restrições geográficas e demográficas. Neste sentido, a relação seria MV > PT, e na hipótese de eficiente uso da escassez da moeda metálica, MV = PT. Porquanto de um lado M, V e T teriam existência material, e, por conseguinte, restrições a ajustes sem custo econômico, e do outro P é mera realização social, quem pode sair de um patamar a outro sem envolver nenhum outro inter-relacionamento econômico senão a transação em si, Fisher propõe a regra numa dimensão de causalidade. Conhecidos M, V e T então P tenderia a se equilibrar na média próximo à relação funcional f(V, M, T) = MV / T. Isto não é um aforisma, mas em verdade uma proposição teórica justificada pelo apelo ao bom senso no caso limite em que as transações comerciais são efetivamente levadas a cabo pela troca monetária em forma metálica. Se concebe-se a possibilidade de transações sob crédito ou de formas alternativas de dinheiro, então o argumento não vale mais. A própria identificação do significado das letras torna-se opaco. Desnudada, a relação resume-se a mera identidade tautológica: o valor agregado das mercadorias comercializadas em denominação monetária é igual ao montante de transações monetárias realizadas no âmbito do comércio de mercadorias. Noutras palavras (PT) e (MV) são formas alternativas de se referir a uma mesma coisa. As causalidades não são nada evidentes.
Que se diga então com todas as letras: qualquer identidade econômica são ou mera tautologia linguística ou uma afirmação acerca das restrições econômicas de ajuste de algumas das variáveis envolvidas. Se for o primeiro caso, não dizem nada mais do que 2 = 1 + 1. Se for o segunda caso, existe uma proposição teórica por trás, que pode ser correta ou não. Escrever uma identidade tautológica na forma de equação e interpretar a seu bel prazer o significado das letrinhas, isto é desonestidade intelectual. Ou simplesmente burrice mesmo.

Monday, 16 March 2015

Em defesa de SP

Se algo ficou evidente nestas manifestações do dia 15, se é que havia alguma ambiguidade antes, é que o que se passa em SP é qualitativamente diferente do que se passa no resto do Brasil. E sem entender as reais causas disto qualquer resposta política será irrelevante. O discurso corrente do governo apontando para o conservadorismo e proselitismo paulista é patético. Tampouco a oposição, ou melhor, as oposições, parecem ser capazes de organizar um conjunto coerente de ideias para expressar sua angústia. Para mim é bastante evidente que esta angústia decorre da decadência econômica de SP. Decadência ainda não totalmente manifesta nas estatísticas, mas aparente na constatação de que a vanguarda econômica do Brasil não está em SP. Pela primeira vez em muito tempo. A fronteira do agronegócio, a mineração, a extração de petróleo, as iniciativas de energia renovável, as grandes obras de infraestrutura e mesmo a enorme expansão do comércio e dos serviços, não encontram em SP seu epicentro.
Mas a causa profunda da decadência não reside na geografia ou mesmo na política. O modelo econômico de SP baseado nas multinacionais, no sistema financeiro e na mídia nacional se esgotou, cada qual a seu modo, em decorrência da evolução tecnológica. No caso das multinacionais, o movimento de centralização global do processo empresarial retirou grande parte do poder de barganha da burocracia empresarial local. As assimetrias de condições de trabalho entre empresas multinacionais e empresas nacionais, que em nossa compreensão decorriam da usurpação por parte da burocracia empresarial das filiais de parte do poder de mercado das matrizes, simplesmente desapareceu. Estas condições não apenas alimentavam diretamente os termos de trabalho dos empregados das multinacionais mas também todo o universo de empresas e profissionais liberais que viviam de prestar serviços a estas. A equalização das condições laborais da empresa nacional com as multinacionais teve como impacto indireto a quebra das vantagens competitivas daquelas outras empresas que gravitavam em torno das multinacionais. A competição passou a ser mais igual, o que certamente abriu espaço para o florescimento de outras empresas em outros estados.
O impacto tecnológico no sistema financeiro é bem menos sutil. A partir da década de 1980 quando o estado da arte em tecnologia da informação viabilizou a centralização total do back office do setor financeiro, isto implicou numa enorme concentração de postos de trabalho nas respectivas sedes. Como o sistema financeiro concentrou-se profundamente em SP, e como foi e continua sendo, uma atividade altamente lucrativa, isto propiciou a proliferação de um sem número de postos de trabalho altamente remunerado em termos relativos sem nenhuma contrapartida na grande maioria dos demais estados. Mas a tecnologia continuou evoluindo, e o nível de automação propiciado, reverteu pêndulo mais uma vez, agora em direção à rede de agências e serviços financeiros. A importância do valor adicionado pelas atividades da sede declinou substancialmente em relação ao valor adicionado pelas atividades comerciais descentralizadas nos últimos anos.
Finalmente, no que se refere à mídia nacional o impacto da tecnologia é tão universalmente compreendido que não cabem explicações adicionais. É uma atividade que se descentralizou de forma permanente e consistente. A informação e em certa medida a cultura torna-se ou radicalmente local ou radicalmente global, e dificilmente um novo movimento de centralização ocorrerá. O que ainda subsiste provavelmente sumirá com o tempo.
Tendo sido diagnosticados os vértices da decadência econômica de SP, resta a proposição de uma alternativa. Num mundo ideal esta alternativa surgiria organicamente da própria sociedade, mas falta-lhe liderança, falta-lhe coordenação. Não é demais esperar que pelo menos parte da iniciativa venha do poder público, com sua invejável envergadura econômica e decorrente capacidade de conglomerar recursos. E como há pelo menos vinte anos o poder político discricionário vem sendo profundamente centralizado no poder federativo, é demasiado ingênuo que se cobre esta iniciativa primordialmente dos governos locais. Com o poder vem a responsabilidade. E há muito tempo o poder federal abstém-se da responsabilidade de liderar SP como nova vanguarda econômica. Muito pelo contrário, em sua opção preferencial pelos pobres, não somente pela renda, mas também pela geografia, o governo central imputa ao povo de SP o peso das transformações necessárias do Brasil sem nada oferecer-lhe em troca. SP se beneficia da prosperidade nacional? É claro que sim. Isto é suficiente para gerar uma nova onda de desenvolvimento autônomo, dinâmico e criativo? Não. É disto que SP precisa. Urgentemente!   

Presidenta, o povo de São Paulo não quer saber se a Sra. governa para 200 milhões de Brasileiros. Queremos saber se a Sra. governa para 26 estados. SP não quer as grandes obras, não quer grandes programas redistributivos, não quer grandes verbas. Quer liderança, quer estratégia, quer uma visão, enfim quer uma política. O Brasil viveu nos últimos 12 anos da ilusão que poderia promover uma estratégia de desenvolvimento sem ter SP como vanguarda. Não deu certo. Nunca daria certo. Tentemos de novo, agora de forma coordenada. Que não se impute mais qualidades ao povo de SP que não lhe são próprias. Este povo recebeu de braços abertos povos do país e do mundo. Este povo foi vanguarda política, berço dos movimentos progressistas modernos. Não é um povo, em sua vasta maioria, reacionário e intolerante.